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NOITES SOMBRIAS

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  Nem sei como tudo começou. Aliás, sei sim. Foi na pandemia, bem no início, naqueles primeiros meses que não havia vacina, a gente se sufocava com as máscaras e o fim do mundo parecia estar logo ali. Quem primeiro pegou a peste foi meu irmão mais velho, Leandro. Além de irmão, também era meu ídolo, protetor, corajoso, invencível. Por isso não acreditei quando ele começou a sentir falta de ar e todos aqueles outros sintomas pavorosos. Juro, dentre todas as pessoas do mundo, achei que o Leandrinho nunca pegaria a doença. Mas ele pegou. Minha mãe foi logo em seguida. De repente, na nossa casa havia duas pessoas bem doentes, isoladas cada uma no seu quarto. Meu pai, vivo, saudável e apavorado, me mandou para a peça dos fundos, no nosso terreno mesmo, mas afastada da casa, onde minha querida avó materna viveu feliz seus últimos anos de vida. Lembro que quando entrei na casinha senti o perfume que ela usava, uma água de colônia antiga. Lá tinha cheiro de talco, da comidinha cadeir...

UM ZUMBIDO MORA EM MIM

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  *alerta de alguns palavrões. Já posso começar a gritar ou o horário não permite? Em um primeiro momento não me importei. Era um zumbido qualquer. Quer dizer, quando acordei de noite com o zumzum no meu ouvido, muito pensei que fosse o Januário, meu mosquito de estimação. O Janu vivia no meu quarto e após tentativas infrutíferas de tentar acabar com ele a chineladas, decidi adotá-lo. Mas não era o Januário. Na segunda madrugada me dei conta que era algo pior. O maldito zumbido no ouvido. Já escutara colegas de trabalho reclamando, mas, como não era comigo, nunca dei bola. Agora compreendo exatamente o que aquelas pessoas estavam sentindo. Ou ainda sentiam. O inferno morava dentro do meu ouvido, naquela minha linda orelhinha onde eu carregava meus mais belos brincos. Fui a três otorrinos. Nenhum chegou à conclusão definitiva do que causava o incômodo. Fiz uma audiometria. O laudo concluiu que havia alguma perda auditiva, mas nada significativo. Porra! Por que raios meu ouvido zumbi...

UM AMOR, UM VERÃO

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  Em um verão desses fui para a casa do meu pai, distante 600 quilômetros onde eu moro. Todo o ano era a mesma coisa. Papai praticamente exigia minha presença, já que ficamos sem nos ver quase o ano inteiro. Sempre achei enfadonho. A gente não tinha muito em comum.   Mas aquele ano foi diferente. Naquele ano eu conheci a Flavinha.   Posso dizer que me apaixonei no instante que pus os olhos nela. Ela era uma gata. 18 anos, loirinha, rosinha nos lugares certos. Passei o verão todo com ela. Foi incrível, melhores férias da minha vida.   Mas chegou o momento de eu voltar pra casa.   Choramos os dois. Prometemos amor eterno e jurei que daria um jeito de voltar nas férias de inverno. Lembro que vim dentro do ônibus chorando mansinho para ninguém perceber meu sofrimento.   Comecei a trabalhar em março com um objetivo: comprar uma aliança de noivado e selar compromisso em julho, quando fosse visitá-la novamente. Nós falávamos sempre. Flavinha ne...

LITERATURA, EROTISMO E CONFUSÃO

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 A 1ª Festa do Livro do bairro Menino Deus não tem apenas literatura! Tem livro de contos eróticos e muita confusão!  Era mais um encontro realizado pela LOVE/MD (Liga Organizada dos Vizinhos Encantadores do Menino Deus), em que os moradores do bairro se reuniam para discutir propostas e melhorias para a comunidade. Os assuntos mais prementes já haviam sido discutidos quando o presidente da LOVE estufou o peito e olhou para cada um dos vizinhos que se encontravam ali. Eram em torno vinte. ― Vizinhos e amigos, tenho um projeto que venho elaborando há algum tempo e gostaria de submeter a vocês. Silêncio. Alguns bocejaram. Outros fizeram uma expressão maior ainda de enfado. O encontro já tinha duas horas de duração e todo mundo queria ir para casa. Tadeu, pelo visto, não. Um dos presentes perguntou: ― O senhor não pode enviar o seu projeto via WhatsApp para apreciação? Alguns murmuraram, concordando. Tadeu, contudo, respondeu: ― Prometo que não levará mais que dez minut...

A COISA DO MD

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Sinopse: no nem assim tão tranquilo bairro Menino Deus, os moradores são assombrados por mortes inexplicáveis. Uma criatura misteriosa de origem desconhecida começa a aterrorizar a comunidade, deixando a todos em um estado de pânico permanente. Depois de 15 dias de chuva incessante em Porto Alegre, aquela quinta-feira amanheceu com uma brisa agradável no bairro Menino Deus. Cecília acordou cedo com os raios de sol entrando pelas frestas da persiana e levou alguns segundos até se dar conta que a chuva tinha dado uma trégua. Animada, Cecília decidiu sair da cama naquele momento. Não eram nem sete horas da manhã, mas precisava aproveitar o sol para lavar a roupa suja acumulada dentro da máquina de lavar. Antes, porém, decidiu tomar um chá de hortelã. Cantarolando, esquentou a água no micro-ondas e foi para a janela. Bem em frente passava o arroio Dilúvio com suas águas barrentas e alguma correnteza. Ela gostava de dizer às amigas que o Dilúvio, com todas suas peculiaridades, era um pont...