NOITES SOMBRIAS
Nem sei como tudo começou. Aliás, sei sim. Foi na pandemia, bem no início, naqueles primeiros meses que não havia vacina, a gente se sufocava com as máscaras e o fim do mundo parecia estar logo ali. Quem primeiro pegou a peste foi meu irmão mais velho, Leandro. Além de irmão, também era meu ídolo, protetor, corajoso, invencível. Por isso não acreditei quando ele começou a sentir falta de ar e todos aqueles outros sintomas pavorosos. Juro, dentre todas as pessoas do mundo, achei que o Leandrinho nunca pegaria a doença. Mas ele pegou. Minha mãe foi logo em seguida. De repente, na nossa casa havia duas pessoas bem doentes, isoladas cada uma no seu quarto. Meu pai, vivo, saudável e apavorado, me mandou para a peça dos fundos, no nosso terreno mesmo, mas afastada da casa, onde minha querida avó materna viveu feliz seus últimos anos de vida. Lembro que quando entrei na casinha senti o perfume que ela usava, uma água de colônia antiga. Lá tinha cheiro de talco, da comidinha cadeir...