LITERATURA, EROTISMO E CONFUSÃO
A 1ª Festa do Livro do bairro Menino Deus não tem apenas literatura! Tem livro de contos eróticos e muita confusão!
Era mais um encontro realizado pela LOVE/MD (Liga Organizada dos
Vizinhos Encantadores do Menino Deus), em que os moradores do bairro se reuniam
para discutir propostas e melhorias para a comunidade. Os assuntos mais
prementes já haviam sido discutidos quando o presidente da LOVE estufou o peito
e olhou para cada um dos vizinhos que se encontravam ali. Eram em torno vinte.
― Vizinhos e amigos, tenho um projeto que venho elaborando há
algum tempo e gostaria de submeter a vocês.
Silêncio. Alguns bocejaram. Outros fizeram uma expressão maior
ainda de enfado. O encontro já tinha duas horas de duração e todo mundo queria
ir para casa. Tadeu, pelo visto, não. Um dos presentes perguntou:
― O senhor não pode enviar o seu projeto via WhatsApp para
apreciação?
Alguns murmuraram, concordando. Tadeu, contudo, respondeu:
― Prometo que não levará mais que dez minutos. Bem, o que eu
quero propor é que nossa Liga organize uma Feira do Livro de um dia só.
Cecília levantou o dedo:
― Me parece ser uma ótima ideia. E quem seriam os expositores?
― Aí, minha cara, é que está o segredo do sucesso da nossa
feira. Os próprios moradores do bairro. Nossos vizinhos. O que acharam da
ideia?
Ninguém contrapôs, todos estavam ansiosos para ir embora. Era
melhor concordar. Lá fora, uma chuvinha fina caía. Cecília se empolgou. Tinha
uma pilha de livros seus de poesia que nunca conseguira vender para ninguém,
nem para a própria mãe.
― Achei ótimo. Inclusive, poderíamos formar uma comissão entre
nós. O que você acha, Tadeu? – ela se virou para os vizinhos. ― E então, tudo
bem para vocês?
Dona Lourdes ficou em pé. Os demais fizeram o mesmo. Ela disse:
― Por mim, está ótimo. Podem formar a comissão que quiserem.
Agora, se me dão licença, está na hora da minha novela. Boa noite.
Em um minuto a sala de reuniões da LOVE estava vazia. Tadeu,
meio constrangido, olhou para Cecília.
― O que acha de nós sermos a “comissão”? Presidente e vice? Eu
sendo o presidente, é lógico, já que sou o autor do projeto.
― Acho ótimo – Cecília estava realmente animada. ― Acho que tem
tudo para ser um sucesso.
― Perfeito. Vou enviar o projeto para seu Whats. Talvez tenhamos
que nos encontrar mais vezes.
― Sem problema. Tenho certeza que a nossa Feira será um arraso.
*
― Eu simplesmente não consigo acreditar, Tadeu!
Faltava um mês para a Festa do Livro do Menino Deus. Os espaços
nos estandes estavam quase todos vendidos.
― Não entendo o motivo da sua revolta, Cecília.
Ela olhou para Tadeu e encontrou na expressão dele algo parecido
com cinismo.
― Ah, não entende? Convidar uma escritora de contos
pornográficos para participar da Festa do Livro e ainda dar de presente a ela a
melhor localização? Você acha justo? Todos os outros participantes pagaram pelo
seu espaço.
Tadeu manteve a calma ante a fúria da sua vice-presidente.
― Vamos por partes. Camilly .G não é uma escritora pornográfica. Ela escreve contos eróticos que fazem o maior sucesso, inclusive, internacionalmente. Acho justo que uma escritora deste porte ganhe um espaço na nossa Festa. E ela aceitou. Tenho a acrescentar que consegui falar via celular com ela. É uma pessoa muito simpática e acessível.
― Tadeu! – Cecília sapateou no meio da sala de reuniões da LOVE.
― A escrita dela fere a moral e os bons costumes! Teremos crianças e idosos que
virão à Festa! Garanto que Camilly .G virá com um daqueles vestidinhos colados
marcando a calcinha! É assim que ela se apresenta quando vai às suas sessões de
autógrafo! O que eu vou dizer para meus filhos?
― Relaxe, Cecília. Pense da seguinte forma. Nossa Festa do Livro
vai se realizar em um mesmo final de semana da Feira do Livro de Porto Alegre.
Quando as pessoas souberem que uma celebridade do porte de Camilly .G estará
presente aqui no bairro, nós só teremos a ganhar! Será dinheiro circulando no
bairro. Vai todo mundo vir pra cá!
― Cruzes, Tadeu. – Cecília pegou a bolsa que estava sobre uma
mesa e se virou, dramática, para ele. ― Quero que você saiba que discordo da
sua decisão. Boa noite!
*
Márcio estava na cozinha preparando o jantar quando Cecília
chegou, furiosa. Os filhos estavam em seus respectivos quartos. Melhor assim.
Ela não queria que as crianças escutassem o que tinha para falar. Ou
esbravejar.
― Você está tensa ou é impressão minha? – Márcio, muito calmo,
cortava dois tomates para o molho da carne.
― Eu quero matar o Tadeu!
― O que houve? Ele desistiu da Festa do Livro?
― Antes fosse. Sabe o que ele fez? – Cecília fechou a porta da
cozinha para ter certeza que os filhos não escutariam nada.
― Não faço a menor ideia.
― Ele convidou Camilly .G para participar da Festa do Livro do
Menino Deus!
Um tomate rolou pelo chão. Márcio não fez força para juntar.
― Espera um pouquinho. Você está falando daquela gostosa que escreve
contos eróticos?
Cecília ficou em silêncio.
Aos poucos seu rosto foi assumindo uma tonalidade vermelha. Não esperava
que seu marido fosse se manifestar com tamanha emoção.
― Cíci, o que você tem? É um AVC? Se acalma, senta aqui no banquinho.
O banquinho foi recusado.
― Ah, então você também está animadinho com a participação da
bisca na nossa Festa?
― O que você vê de mal? A mulher só escreve sucessos. Ficou rica
escrevendo...
― Putaria – completou Cecília com os olhos faiscantes de raiva.
Sim, estava perto de ter um derrame cerebral.
― Contos eróticos também é literatura.
― Literatura lixo.
― Escute, amor. Relaxe e goza. Quer dizer, desculpe. Mas, veja
bem. A presença de Camilly .G só vai trazer benefícios para a Festa. Uma
celebridade no nosso bairro! Puxa, achei uma baita sacada do Tadeu. Aliás, se
você escrevesse contos de sacanagem, garanto que venderia muito mais que seus
livros de poesias inocentes. Pense nisso.
Cecília respirou fundo. Fechou os olhos por alguns instantes.
Quando os abriu novamente, encarou o marido e disparou:
― Vá pro inferno, Márcio.
Naquela noite Cecília não jantou.
*
Graças ao filho de Tadeu que estudava na mesma escola em que
Cecília lecionava, no dia seguinte todos
os alunos sabiam que Camilly .G era presença confirmada na Festa do Livro. Só
se falava nisso. Em uma das turmas, Cecília foi obrigada a mandar um aluno para
a Direção depois que se deparou com uma faixa enorme de Camilly .G grudada no
fundo da sala. Mais tarde, na Sala dos Professore, quando comentou com as
colegas o quanto lhe desagradava o convite de Tadeu, foi rechaçada. Todas as
outras professoras acharam o máximo a vinda de Camilly. Os professores homens,
bem, estes não se cabiam de satisfação. Era impossível discutir um assunto
sério com aquela gente sem noção. Naquele dia Cecília pensou seriamente em
entrar de licença médica e só voltar no outro ano letivo.
Em meio ao turbilhão dos seus pensamentos, Cecília se lembrou de
algo importante. E da Sala de Professores, sem se importar com quem estivesse
perto, disparou um áudio furioso para o cretino do Tadeu:
― Não sei se você lembra, mas a Festa do Livro do Bairro Menino
Deus é somente para moradores do BAIRRO. Pelo que me consta, sua convidada especial
não vive aqui faz uns dez anos. Foi se enfiar em São Paulo por achar que Porto
Alegre é pouca coisa pra ela. Pronto, falei.
Cecília largou o celular com força sobre a mesa e se deparou com
alguns pares de olhos, fitando-a. Ainda raivosa, achou que aquele era o momento
para divulgar sua obra:
― Já falei para vocês que vou expor meus livros de poesias na
Festa do Livro? O título é Flores do Meu Jardim.
Ninguém falou nada, a não ser um professor, o mais antigo da
escola que, por caridade, retrucou:
― Parabéns.
*
À medida que o dia da Festa do Livro se aproximava, os moradores
iam criando mais e mais expectativas. Tadeu contratou uma empresa de eventos
para cuidar de tudo. A previsão do tempo indicava que seria um dia perfeito,
com sol e céu azul. A Praça França estava ficando linda. Senão fosse pela
presença da escritora porno-erótica, Cecília estaria vivendo um dos seus dias
mais felizes, quando finalmente teria o reconhecimento de outras pessoas pelo
seu trabalho literário.
Na véspera da Festa, uma sexta-feira à noite, Cecília, em casa, fazia os seus
preparativos para o dia seguinte. Presentearia cada comprador com uma rosa e um
bombom. Mas uma notificação no seu celular fez com que interrompesse sua
atividade. Era Tadeu. Ele lhe enviara uma foto e um áudio.
― Veja como está ficando linda a Praça França, Cecília. Nosso
esforço valerá cada pingo de suor e tempo investido na realização da nossa
Festa. Estamos de parabéns!
Curiosa, Cecília abriu a foto. Uma enorme faixa presa entre dois
postes anunciava a presença de Camilly .G como a principal participante da
Festa do Livro do Menino Deus. Cecília sufocou a raiva dando dois murros na
mesa. Depois, respirou fundo e devolveu o áudio controlando o tom de voz.
― Está ficando incrível, Tadeu. Parabéns.
Aquilo era demais. Um acinte.
Foi então que ela teve uma ideia. Uma grande ideia.
*
O casal de filhos estava na casa de amigos. Márcio, no quarto,
relaxava assistindo a uma série. Aquele era o momento propício. Sem dar maiores
explicações, avisou o marido que a vizinha tinha lhe chamado para contar alguma
fofoca. Márcio não deu bola, mal olhando para ela. Melhor assim. Assim ele não
veria sua cara de louca. Cecília desceu de elevador até a garagem do prédio e
pegou emprestada a bicicleta do filho. Sem se importar com a noite escura, ela pedalou
veloz até a Praça França, distante apenas dez minutos de casa. O lugar estava
deserto, como suspeitava. Perfeito para pôr o plano em prática. Cecília olhou
em volta. Um homem sem-teto a observava sentado em um banco. Foi para lá que
ela se dirigiu.
― Boa noite, moço. Tá disposto a ganhar uma grana?
O cara olhou para Cecília, desconfiado:
― O que eu preciso fazer?
Cecília abriu a bolsa e tirou uma tesoura afiada. O homem chegou
a se encolher.
― É muito simples. Pago 100 pila para você ir até lá e picotar
aquele pedaço de pano todinho.
O sem-teto voltou os olhos na direção que Cecília apontava.
― A senhora quer que eu acabe com a faixa onde está a moça
bonita?
― Vai recusar a proposta? Não é todo dia que você ganha uma boa
grana sem ter que fazer quase nada.
― Tudo bem – ele levantou e pegou a tesoura. ― Mas eu cobro
adiantado.
Do bolso da calça jeans Cecília sacou o dinheiro e entregou a
ele.
― Seja discreto. Se alguém te ver, não me envolva. Depois de
terminar o trabalhinho, pode ficar com a tesoura. E não banque o espertinho.
Vou ficar atrás da moita controlando seu serviço.
Cecília se afastou para um lado e o homem para o outro.
Escondida quase dentro de um arbusto, observou-o fazer o serviço em menos de
cinco minutos. Em seguida, ele pegou suas coisas e foi embora. Cecília, com a
sensação de um dever cumprido, fez o mesmo.
*
Pontualmente, às oito horas da manhã, Tadeu chegou à Praça.
Desceu do carro já falando no celular com a empresa de eventos que iria montar
tudo. Seu espanto ao ver a faixa de Camilly .G inteiramente aos farrapos fez
com que amaldiçoasse o filho da puta que tinha feito aquilo. A ex-faixa seria
uma maneira de se aproximar da escritora e, quem sabe, convidá-la para jantar.
Meia hora depois chegou Cecília puxando um
carrinho de supermercado em que estavam 30 exemplares do seu livro de poesias.
Àquela altura, a empresa de eventos estava terminando de montar os estandes que
fariam uma espécie de U na praça. Evidente que Tadeu providenciara o melhor
lugar para Camilly. Ele, ainda emburrado por causa da faixa destruída, apontou
o estande destinado para Cecília. Foi com um sorriso debochado no rosto que ela
começou a organizar sua exposição.
Os vizinhos que participariam da Festa do Livro
com seus trabalhos começaram a chegar. Todos muito sorridentes e satisfeitos,
curiosos com a presença iminente de Camilly. O dia estava lindo. O ar, alegre.
Tadeu corria de um lado para o outro tentando deixar tudo perfeito. A Praça França
era um misto de conversa agradável e cordialidade entre os vizinhos. Afinal,
todos queriam que a Festa do Livro do Menino Deus fosse um sucesso absoluto.
― Oi, mãe.
A Festa recém começara com Tadeu tocando um sino de um lado para
o outro, anunciando a abertura dos trabalhos. Cecília olhou para o lado e deu
de cara com Rafaela, a filha de 17 anos.
― Filha! Que surpresa! Veio prestigiar a mamãe?
Rafa sorriu e declarou na maior inocência:
― Trouxe o livro da Camilly .G para ela autografar para mim.
Os olhos de Cecília se fixaram na capa do livro em que um casal
nu se beijava sobre uma cama.
― Como assim? Você não tem idade para ler pornografia!
― Mãe, fala baixo, pelo amor de Deus – Rafaela olhou para os
lados, envergonhada. ― Não tem pornografia nenhuma no livro.
― E esta capa é o quê? De alguma religião?
― Acho bom você se controlar.
― Me dá esta porcaria.
Cecília esticou a mão para pegar o livro. Rafaela recuou dois
passos.
― Pirou, mãe? Eu vou pegar o autógrafo dela, sim!
― O que eu fiz para merecer isso, meu Deus? Escute aqui, se você
não jogar o livro no lixo agora mesmo, deixo você sem celular por uma semana!
Alguns olhos nem tão discretos se voltaram para as duas. Rafaela
revirou os olhos e decidiu se afastar para a briga não aumentar. Os fãs de
Camilly .G já se aglomeravam em frente ao estande dela. Contudo, de Camilly nem
sinal. A esperança de Cecília era que a vadia tivesse desistido de participar.
Certo burburinho começou a se formar. Parecia que quase todos ali presentes na
Festa estavam por Camilly, para desgosto de Cecília.
Mas dela, nem o cheiro.
*
Por volta das 10h30 da manhã, um carro possante e escuro parou
junto ao meio-fio do passeio principal da Praça França. Todos os olhos,
inclusive os de Cecília, se voltaram naquela direção. O motorista, um homem
alto vestindo um terno preto, saiu do carro, deu a volta e abriu a porta de
trás. Quase ninguém respirava naquele lugar. Uma perna morena foi a primeira
coisa que os fãs viram. Gritos e alguns urros dos mais afoitos. De repente,
Camilly .G apareceu de corpo inteiro, vestindo uma calça jeans destroyer e uma
regata azul. O cabelo loiro descia pelas costas e ela exibiu um sorriso
inebriante para seus fãs.
Tresloucado, Tadeu foi até ela, suando e sorrindo. O estande de
Camilly ficava no outro ponto da praça. Cercada por quatro seguranças, mais
Tadeu, a escritora atravessou a praça ante a gritaria de quem estava na Festa
do Livro somente para vê-la. Cecília torceu a cara. A mulher nem era tão bonita
assim. Cabelo falso, bunda e peito siliconados, lábios com botox. Cruzes. Mas
os fãs não estavam nem aí se Camilly .G tivesse passado por mil e um
procedimentos. O que eles queriam mesmo era um autógrafo e uma selfie com a
diva.
Cecília assistiu, despeitada, Camilly atravessar a praça sem
nunca tirar o sorriso simpático e agradável do rosto. Assessores levavam os
livros em duas caixas e Cecília, invejosa, tinha certeza que Camilly venderia
tudo antes mesmo do meio-dia. Melancólica, olhou para seu estande com os livros
de poesia tão bem arrumadinhos. Até aquele momento não tinha vendido nenhum.
O estande de Camilly foi imediatamente organizado e os livros
expostos para o público começar a adquirir. Rafaela, a filha, era uma das primeiras
da fila para autografar. Que decepção.
― Bom dia, Dona Lourdes! – Cecília quase agarrou a vizinha que
passava, apressada, bem em frente a seu estande. ― Não quer conhecer meu livro
de poesias?
Dona Lourdes olhou para Cecília com alguma impaciência.
― Depois, Cecília. Depois que a Camilly .G autografar meu
exemplar eu volto aqui.
Ela não teve tempo de esboçar qualquer reação. Surpresa
negativamente com tudo o que estava vendo, Cecília olhou para frente e deu de
cara com Márcio, o esposo, acompanhado de Pedro, o filho dos dois.
― Ah, meus amores! Que bom! Vieram me prestigiar?
Pedro, contudo, mostrou o livro de Camilly para a mãe.
― Tô indo ali pegar o autógrafo dela, mãe. Papai também.
Márcio fez um sinal, um pouco constrangido, para a esposa. Petrificada,
Cecília observou sua família inteira fazendo plantão na imensa fila que se
formara frente ao estande de Camilly. Ela olhou em volta. Praticamente, todos
os visitantes se dirigiram para lá. O estande de Cecília e de outros
expositores se encontrava vazio. A vontade de matar Tadeu era enorme. A culpa
era toda dele.
Emburrada, Cecília decidiu que depois de terminada a Festa do
Livro iria direto para um bar tomar um porre e chorar. E que ninguém ousasse
lhe julgar.
― Oi, amiga! Como estão as vendas?
Sentada no seu estande, curtindo uma enorme frustração, Cecília
olhou para cima. Mirtes, uma das suas melhores amigas, encarava-a com
curiosidade.
― Que vendas, Mirtes? A peituda roubou todos meus leitores.
Foi quando percebeu que Mirtes trazia nas mãos o livro de
Camilly.
― Até tu, Mirtes?
― Amiga, você tem que deixar esta raiva de lado. Isso está lhe
consumindo.
― Ah, então você acha que sou obrigada a gostar de contos de
sacanagem? – Cecília ficou em pé, inflamada.
― De forma alguma. Só acho que você deve abrir sua cabeça. Olha
aqui – empolgada, Mirtes abriu o livro e apontou para um dos capítulos. ― Veja
que conto magnífico.
Contrariada, Cecília olhou para onde a amiga indicava. Sem
querer admitir, achou o título do conto erótico muito sugestivo.
― “Clitóris, oi sumido.” – Cecília respirou fundo. ― Mas que...
interessante. Acho que vou mandar meu marido ler.
― Faça isso – Mirtes apoiou. ― Inclusive, estou pensando em
fazer um sarau com foco neste conto lá na LOVE. Será que o Tadeu permite?
Cecília não teve tempo de responder. Uma voz um tanto quanto
irônica chamou sua atenção.
― Oi, professora! – Rodriguinho, o filho do zelador do prédio em
que Cecília vivia estava parado a poucos metros de distância. ― Como estão as
vendas?
Ele não esperou resposta. Seguiu apressado pela Praça levando o
livro de Camilly nas mãos. Debochada, Cecília comentou:
― Olha ele... Nem sabia que era alfabetizado. Na verdade, para
ler os livros dessa “autora”, não é necessária muita inteligência. Quer saber?
Phodasse tudo. Tudo mesmo.
Mais tarde, Márcio apareceu para fazer companhia para Cecília,
que não se dignou a olhar para a cara do marido. O movimento no estande de
Camilly se mantinha intenso. Por volta das 15 horas, Márcio dormia numa cadeira
de praia ao lado de Cecília, ligeiramente roncando. Dois exemplares do seu
livro de poesias haviam sido vendidos.
Sucesso.
Desanimada, ela se perguntou se não deveria juntar suas coisas e
ir embora, dignamente. Foi então que algo muito doido aconteceu.
Um vento forte desarrumou o cabelo sempre bem penteadinho de
Cecília. Surpresa, ela levantou os olhos para os lados do Guaíba. Uma nuvem
preta se aproximava.
― Meu Deus! – ela empalideceu e começou a sacudir o marido. ―
Márcio, acorda! Tem um ciclone chegando!
As pessoas ficaram paralisadas por alguns segundos mirando a
nuvem negra que nenhum instituto de climatologia fora capaz de prever. Pouco
depois, um vento mais forte soprou. Márcio ficou em pé sem saber bem onde
estava. Uma rajada mais forte varreu os livros de Cecília do estande. A
gritaria e a correria só estavam no início.
Márcio saiu, afobado, a catar os livros da esposa antes que o
ciclone levasse tudo por diante. Os outros escritores fizeram o mesmo. Tadeu
parecia uma barata tonta correndo de um lado para o outro, zonzo. A assessoria
de Camily .G fez um círculo em sua volta para protegê-la da ventania. Os livros
dela também se espalharam pela Praça França.
A confusão era total. Livros voavam, pessoas fugiam, a nuvem
negra estava cada vez mais perto. Cecília foi derrubada por uma rajada mais forte
quando foi tentar pegar a cadeira de praia que foi parar no meio de um arbusto.
Então algo lhe chamou atenção.
Um dos livros de Camilly .G boiava no lago. Cecília conseguiu
ficar em pé a despeito do vendaval. Puxando o vestido para acima dos joelhos,
tirou as sandálias e entrou no laguinho. Naquele momento, aquela cena era
perfeitamente normal ante o caos formado pelo ciclone. Ela precisou dar uns
três, quatro passos, até conseguir resgatar o livro de Camilly .G. Ainda dentro
do lago, Cecília leu o título:
TUDO O QUE VOCÊ QUISER, EU FAÇO.
Sem que ninguém prestasse atenção nela (fato comum naquele dia),
Cecília colocou o livro no decote do vestido, bem escondido.
Agora aquele livro de sacanagem era seu.




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