UM ZUMBIDO MORA EM MIM


 

*alerta de alguns palavrões.


Já posso começar a gritar ou o horário não permite?


Em um primeiro momento não me importei. Era um zumbido qualquer. Quer dizer, quando acordei de noite com o zumzum no meu ouvido, muito pensei que fosse o Januário, meu mosquito de estimação. O Janu vivia no meu quarto e após tentativas infrutíferas de tentar acabar com ele a chineladas, decidi adotá-lo.


Mas não era o Januário. Na segunda madrugada me dei conta que era algo pior. O maldito zumbido no ouvido. Já escutara colegas de trabalho reclamando, mas, como não era comigo, nunca dei bola. Agora compreendo exatamente o que aquelas pessoas estavam sentindo. Ou ainda sentiam. O inferno morava dentro do meu ouvido, naquela minha linda orelhinha onde eu carregava meus mais belos brincos.


Fui a três otorrinos. Nenhum chegou à conclusão definitiva do que causava o incômodo. Fiz uma audiometria. O laudo concluiu que havia alguma perda auditiva, mas nada significativo. Porra! Por que raios meu ouvido zumbia, então?

Nunca consultei tanto o Google na minha vida. Descobri que zumbido podia ser uma infinidade de coisas, como problemas na mandíbula, excesso de cera, medicamentos.


Velhice, inclusive.


Achei que fosse enlouquecer algumas vezes. No meu trabalho ninguém desconfiava do meu inferno interior. Eu vivia sorrindo, ah que vida maravilhosa que eu levava com uma colônia de Januários habitando meu ouvido direito. Falando em Januário, ele sumiu. Nunca mais o vi. Talvez porque estivesse morando dentro de mim. Vai saber?


Um dia não aguentei. Chorei na frente do meu namorado que não sabia que eu tinha um zumbido me perturbando. Descobriu na hora. Chorei, sapateei, mandei o Universo à puta que o pariu. Depois do drama feito, ele olhou para mim e disse:


― Faça de conta que ele não existe.


Fácil, né? 


Bom, foi o que fiz. Me revoltei. Como eu permiti que um zumbido pudesse interferir tanto na minha vida a ponto de me fazer ter pensamentos, digamos, estranhos? Fiz que não era comigo. Fui forte, resiliente. Bati no peito e avisei ao zumbido quem é que mandava ali.


Venci.


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