NOITES SOMBRIAS
Nem sei como tudo começou. Aliás, sei sim. Foi na pandemia, bem no início, naqueles primeiros meses que não havia vacina, a gente se sufocava com as máscaras e o fim do mundo parecia estar logo ali.
Quem primeiro pegou a peste foi
meu irmão mais velho, Leandro. Além de irmão, também era meu ídolo, protetor,
corajoso, invencível. Por isso não acreditei quando ele começou a sentir falta
de ar e todos aqueles outros sintomas pavorosos. Juro, dentre todas as pessoas
do mundo, achei que o Leandrinho nunca pegaria a doença.
Mas ele pegou.
Minha mãe foi logo em seguida.
De repente, na nossa casa havia duas pessoas bem doentes, isoladas cada uma no
seu quarto. Meu pai, vivo, saudável e apavorado, me mandou para a peça dos
fundos, no nosso terreno mesmo, mas afastada da casa, onde minha querida avó materna
viveu feliz seus últimos anos de vida. Lembro que quando entrei na casinha
senti o perfume que ela usava, uma água de colônia antiga. Lá tinha cheiro de
talco, da comidinha cadeira que vovó tanto adorava fazer pra mim e as flores
que ela cultivava e que nunca deixei
morrer. Os aromas estavam lá e me acalentavam nos meus momentos de
angústia e desespero. Lá fiquei sem pôr o nariz para a rua durante um mês.
Nestes trinta dias meu pai trazia comida, água, refrigerantes, docinhos, tudo o
que fosse para me distrair. Com meu notebook, eu tinha acesso ao mundo e as
notícias horríveis que não paravam de chegar. Isolada do mundo, eu não via nem
Leandro e nem minha mãe. Aliás, nunca mais os vi. Morreram com diferença de
dois dias após algum tempo passado num hospital. Desesperei-me sozinha, não
tinha um ombro para chorar a perda. Meu pai me informou pelo aplicativo de
mensagens, nervoso, tenso, me proibindo de ir no enterro deles. Com ele,
felizmente, nada aconteceu. Voltei para a casa da frente uma semana depois da
partida da mamãe, a última a falecer, depois que meu pai fez uma limpeza pesada
por tudo.
Havia um imenso buraco em cada
peça daquela casa. Temendo que eu pegasse a peste, papai despachou tudo o que
havia no quarto do Leandro. Chorei de raiva. Fiquei sem nenhuma lembrança dele,
palpável. Com minha mãe foi igual. Era estranho dizer que eu estava em casa,
sendo que aquela casa não era mais meu lar tão amado.
Eu tinha recém feito 16 anos.
Fiz aniversário sozinha na peça dos fundos um pouco antes dos dois partirem. A
única companhia que tive foi da minha vó. Esta mesma, a que tinha morrido
poucos anos antes. Juro que a vi em uma das sombras da sala, sorrindo para mim.
Tentei voltar à vida normal,
recusando-me a morrer junto com eles. Minhas aulas eram remotas, o contato com
meus colegas era virtual. Até um namoradinho virtual, de outro estado eu
arrumei neste meio tempo. As saídas ao supermercado eram controladas. Meu pai
vivia meio apavorado, no início. Porém, o luto dele passou bem rápido.
Reparei que ele saía de casa
mais frequente do que antes. Papai era contador e conseguia fazer home office.
Mas, à medida que as restrições iam diminuindo, ele passou a ficar mais tempo
fora. Não dei muita importância. O dia em que voltei às aulas presenciais foi
comemorado. Mesmo de máscara, fizemos algazarra e festa. Naquele dia resolvi ir
almoçar no shopping com a Luíza. Foi ela que me deu um cutucão que quase
quebrou minhas costelas enquanto passeávamos de braço dado pela praça de
alimentação.
— Aquele cara se
agarrando com a loira não é o tio Oscar?
Claro que não era.
Despretensiosamente, olhei para o lado. Era meu pai. Como se fosse um garotão
de vinte anos, ele acariciava as costas de uma vadia que estava praticamente
sentada no colo dele e com uma saia tão curta que eu quase enxerguei seu útero.
Fiquei sem palavras, chocada.
Luiza me deu um puxão.
— Faz de conta
que não viu e vamos sair daqui.
— Mas como ele
tem coragem, Lu? – eu estava muito inconformada. — Não tem oito meses que ele
ficou viúvo.
Luiza saiu me arrastando pelos
corredores do shopping.
— Você sabe como
os homens são. O tempo de luto deles é diferente.
— Olha o tipo de
mulher que ele pegou! Uma vadia, quase mostrando a calcinha.
— Menina, calma.
Ele...
— Lu, ele não me
disse nada. Agora eu estou entendendo muita coisa.
Não consegui sequer comer nada
naquele dia. Minha ideia era bater de frente com papai quando ele chegasse em
casa. Porém, não fiz nada. Ele retornou por volta das oito horas da noite muito
bem-humorado e ainda me trouxe uma roupa nova. Mais tarde, deitada na cama e
muito magoada, pensei que ele poderia pelo menos ter me contado que estava com
uma namorada nova. Até quando ele pretendia me esconder seu novo status de
relacionamento eu não fazia a menor ideia.
Aquela vida dupla levou dois
meses. E eu aguentando tudo trancado na goela. Um domingo, aniversário dele,
papai resolveu fazer uma festa familiar, com meus tios, primos e agregados. Era
a primeira reunião da parentada depois da pandemia, depois das perdas e que
seria na casa do meu padrinho. Achei que ele levaria a vaca e que me avisaria
antes por consideração à única filha que lhe restara. Mas não. Foi surpresa. Papai
apareceu com a loura pendurada nele. Surpresa geral. Tentei me manter neutra
ante a cara de espanto e algum desagrado por parte de quase toda a família.
Marcia, este era o nome dela.
Marcinha, para meu pai. De fato, Marcia não era uma pessoa ruim. Se esforçou
para ser simpática, sorriu para mim algumas vezes, mas não tivemos nenhum assunto
em comum. Naquela noite meu pai não dormiu em casa. No dia seguinte ele
inventou de iniciar uma reforma na pecinha dos fundos. Não entendi o motivo, o
lugar estava em perfeitas condições. Algumas semanas mais tarde caiu a ficha
quando tudo ficou pronto. A casinha dos fundos era para mim. Meu pai a deixou
fofa e clean (mais tarde descobri que Marcia era decoradora de interiores) para
eu morar lá, já que Marcia estava de mudança para nossa casa, lugar onde fomos
tão felizes. Certo, entendo que ele tem todo o direito de reconstruir sua vida.
A questão é que, nesta reconstrução, eu sobrei.
E um plano mirabolante e
aterrador até mesmo para mim começou a tomar forma nas noites sombrias que se
seguiram.
... se você acha
a história interessante, escreva nos comentários para eu postar a continuação.

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