O BEM-DOTADO

 


— Amiga, você reparou?

Tássia estava muito ocupada tentando fazer uma tabela do Excel recheada de números e gráficos. Escutou a colega miar no seu ouvido e logo deduziu que era algo sem importância.

— Hein?

Kim se aproximou um pouco mais de Tássia e quase colou a boca no ouvido da colega.

— O volume...

Tássia embaralhou os olhos ante tantos números e resolveu dar um tempo. Quando se voltou para olhar a amiga percebeu sua cara de tarada.

Isso mesmo. Kim parecia algo excitada e os olhos estavam brilhantes. Parecia uma gata no cio.

— Mas afinal... Do que você está falando?

— Do nosso novo colega do TI. O Paulinho.

Paulinho. Tássia fez força para lembrar quem era o tal. Vagamente lhe passou pela cabeça um cara com aparência de nerd, com meia dúzia de fios de cabelo sobre a cabeça, óculos de lentes grossas e com um metro e meio de altura. Era tão sem graça o tal do Paulinho que ele não lhe despertou sensação alguma. Apenas que jamais iria sair com ele, caso pintasse um convite. Evidente que o colega nunca lhe convidaria para nada.

— Espera aí. Aquele sem graça de óculos fundo de garrada que andou circulando semana passada por aqui se apresentando como o novo chefe? É este, Kim?

Kim se remexeu, desconfortável, na cadeira.

— Você tem problemas contra quem usa óculos? – Kim ajeitou sua armação pink no rosto.

— Claro que não. Só estou dizendo que o achei sem graça e que os óculos fundo de garrafa pioram a situação. Satisfeita com a explicação? Vai me processar agora?

— Certo. Mas você reparou no volume?

— Que volume?

— Aquele que fica no meio das pernas.

Kim falou um tanto alto demais graças ao seu estado de empolgação geral. Tássia tossiu para disfarçar e bebeu um gole quente de café que lhe queimou a garganta. Volume? Como assim?

— Ele... tem um volume... lá? – Tássia baixou o tom de voz tentando não admitir certo calor instalado bem no centro da periquita.

— Você nunca viu?

— Claro que não. Faz uma semana que estou enrolada com o gráfico que o chefe pediu. Você acha que tenho tempo de reparar nestas coisas?

— Bem, mas deveria – Kim baixou o tom de voz. — Vou dar em cima dele.

Tássia olhou para a amiga. Kim era uma mulher bonita. 1,80 de altura, longos cabelos loiros, podia ter o cara que quisesse. Havia se divorciado há seis meses e padecia de uma carência profunda, tanto amorosa como sexual. Era óbvio que tinha condições para pegar algo melhor que o Paulinho.

— Só acho que vocês não tem nada a ver.

— Pode ser. Mas eu fiquei muito curiosa com o que ele tem no meio das pernas.

— Ele é casado?

— Não sei. E daí?

— Bem, faça o que você quiser – Tássia decidiu interromper o papo. — Só não se esqueça de levar a régua e me contar quanto mede.

*

— Amiga...

Tássia finalmente havia terminado o gráfico. Fazia dois dias que havia conversado com Kim e nem lembrava mais do assunto. Até avistara Paulinho de longe, mas não percebera volume nenhum. E, para falar a verdade, tinha mais coisa para se preocupar. Porém, quando olhou para o lado e se deparou com a mesma cara de tarada da colega, chegou a desanimar.

— Que foi agora?

Kim pegou a mão de Tássia e fez com que ela se levantasse.

— Vamos sair daqui. Tenho um assunto para tratar com você. É muito importante.

Tássia, surpresa e curiosa, deixou-se levar por Kim até o terraço da empresa, uma área para fumantes. Estavam sozinhas.

— Venho conversando com o Paulinho desde aquele dia.

— O quê?

Kim, eufórica, prosseguiu:

— Nossos papos são muito quentes.

— Sério? Já transaram?

— Então... esta é a questão, Tássia. Ele curte coisas diferentes.

— Ótimo. Você também.

Kim respirou fundo.

— Digamos que o Paulinho está a fim de um sexo a três.

Tássia chegou a ir para trás e deu uma gargalhada.

— Gente! Aquela figura estranha curte uma ménage à trois?

— Tássia, a coisa é séria! – Kim ralhou. — Olha, vou direto ao assunto. Nós combinamos de ir ao motel.

— Maravilha. Bom proveito.

— Está faltando uma pessoa. E ele quer que seja você.

— O quê?

O berro de Tássia foi escutado a quilômetros de distância.

— Nem pensar, Kim. Diga para seu amiguinho que vá arrumar outra parceira para as putarias dele. Tô fora.

— Tássia, em nome da nossa amizade – Kim apertou forte o braço da amiga. — me ajuda. Eu fico toda molhadinha só de pensar em ser comida pelo Paulinho, de frente, verso... Não posso mais me controlar. Ele tem uma tara por você. Inclusive, disse que já lhe homenageou várias vezes.

— Que nojo.

Apesar do convite surreal, Tássia ficou curiosa com a situação. Não, não tinha a menor vontade de participar daquela trepada muito louca, mas... E se fosse só uma observadora?

— Por favor, deixe seu nojinho de lado e vamos para o motel com ele, Tássia. Pode ser muito legal.

— Eu vou ter que transar com você?

— Claro que não. Ele vai comer nós duas. Este é o papel dele.

— E se eu quiser só olhar?

— Bem, eu posso ver se ele topa assim.

— Então vamos combinar uma coisa. Se for só para ficar olhando vocês se comerem, eu topo.

— Tudo bem. Eu vou falar com ele. E… vai que você se empolga?

— Muito difícil. Ele é o cara mais ridículo do Brasil.

*

Quinze minutos depois o celular de Tássia recebeu uma mensagem:

“Ele topou. Ficou meio puto, mas aceitou. Só quer que você fique pelada.”

Tássia respondeu: “Tudo bem. Só me confirma o dia e o local.”.

Cinco minutos depois nova mensagem de Kim:

“Hoje. Nós passaremos na sua casa às 20h. Motel Crazy Hole.”.

Tássia suspirou. Logo naquela noite em que pretendia assistir Netflix e tomar vinho até cair bêbada no sofá.

*

A caminhonete negra do Paulinho parou com cinco minutos de antecedência frente ao prédio da Tássia. Ela nunca havia conversado com o homem antes, mas ele estava muito à vontade sentado naquele baita carro, ar confiante e galante. O perfume dele se misturava ao de Kim, ambos em excesso, e Tássia tossiu, enjoada. Pensou que iria sentada no banco de trás e ficou surpresa quando Kim abriu a porta da frente e chegou para o lado.

— Vem, Tássia. Vamos todos juntinhos aqui na frente. Aconchegados. O carro é grande.

Tássia fechou a porta e deu uma olhada de soslaio para Paulinho. Era a primeira vez que ficava perto dele. Aliás, era incrível que Paulinho sentisse tanto tesão por ela, sendo que nunca haviam sequer chegado perto um do outro ou trocado um “oi”.

— Boa noite – cumprimentou meio sem jeito.

Ela se sentiu constrangida. Paulinho não.

— Boa noite, princesa. É um prazer ter você aqui conosco.

Tássia sorriu amarelo. Kim lhe deu um cutucão e com um sinal dos olhos fez com que Tássia olhasse para o volume na calça bege do Paulinho.

Realmente, era incrível. Tássia chegou a piscar. Ainda bem que seria somente uma observadora, pois, se o troço fosse daquele tamanho mesmo, ela não daria conta.

Os três chegaram à recepção do Crazy Hole em meio a papos cheios de sacanagens entre Kim e Paulinho. Tássia, já arrependida de ter entrado naquela furada, somente escutava contando os minutos para cair fora. Quando o carro parou na recepção, Tássia meio que escorregou no banco para não ser vista pelo atendente. Kim lhe deu outro cutucão.

— Para de ser besta.

Paulinho pegou o quarto mais caro do motel, com direito a uma super cama, aparelhos eróticos e uma barra de pole dance. Na certa, Kim fizera o favor de contar que Tássia era professora de pole dance e, no mínimo, Paulinho iria querer uma apresentação exclusiva com ela pelada rodopiando no pau. Ou melhor, na barra do pole dance.

— Uau, que show! – exclamou Kim totalmente extasiada com o ambiente e com o que estava por vir.

Tássia ficou parada no meio do quarto sem saber o que fazer ou dizer. Paulinho, seguro de si e de suas potencialidades, fechou a porta e olhou para elas.

— Então, meninas. Estou aqui para realizar seus melhores sonhos eróticos. Que tal vocês tirarem as roupas?

— Opa! Só estava esperando por isso.

Kim se despiu em cinco segundos. Tássia permaneceu vestida, de braços cruzados, parada no meio do quarto.

— E você?

Ladies first – respondeu Paulinho sorriso de galã, com o volume explodindo na calça bege, quase pornográfico. — Aliás, gostaria de ver você praticando pole dance. Sem roupa.

— Vai, Tássia. É o combinado.

Kim, completamente nua e muito à vontade, olhou para Paulinho, ansiosa.

— Que tal estou?

— Muito bem – mas Paulinho mal olhou para ela. Sua atenção era toda para Tássia. — Vamos iniciar a sessão?

— Tudo bem – Tássia resolveu entrar no jogo. Quanto mais rápido começasse, mais rápido aquela furada que se metera terminaria. Ou não.

Tássia tirou a roupa sem muita vontade e atirou tudo no chão. Sem olhar para nenhum dos dois, fez cinco minutos de pole dance sem se dedicar muito, só o básico. Quando terminou se deparou com Kim se masturbando em cima da cama e Paulinho quase babando de tanto tesão.

— Muito bem. A minha parte eu terminei – Tássia se encaminhou nua para um sofá macio onde sentou e cruzou as pernas. — Agora falta você tirar a roupa e mostrar se o que você tem no meio das pernas é real. Pode começar. Um, dois, três. Kim, pare com esta palhaçada.

— Tudo bem, gatinhas – ele praticamente ronronou. — Agora é comigo.

Ante os olhos atentos de Tássia e Kim, que dera um tempo na siririca, muito devagar Paulinho começou a se despir. Muito devagar mesmo. Kim sentou na cama, quase sem respirar, esperando o desfecho. Tássia o observava com ar de enfado. E, finalmente, Paulinho ficou só de cueca. Uma cueca boxer, preta, coladinha. O volume saltando. Kim estendeu um dedo, tocou e murmurou:

— Grandes promessas.

Tássia apontou para o colega e ordenou:

— Tira esta merda.

E ele tirou, o sorriso de galã misturado a um sorriso amarelo. Uma meia bem enrolada saltou e correu até os pés de unhas vermelhas de Tássia. Silêncio no Crazy Hole. Tássia juntou a meia e atirou para Kim.

— Tá aqui o pauzão que você queria.

Decidida, Tássia levantou e começou a se vestir. Kim pegou a meia, olhou para o pau verdadeiro do Paulinho e acusou-o:

— Propaganda enganosa. Foi isto que você fez com a gente hoje.

Tássia levantou a voz:

— Propaganda enganosa com você. Desde o início eu disse que não iria transar com ele.

Paulinho, um pouco embaraçado, tentou justificar:

— Veja bem, eu sou todo pequeno. Se eu não faço isto, as mulheres não vão se interessar por mim. Kim, olha bem pra ele – Paulinho apontou  para seu pau e o balançou de um lado para o outro. — Ele nem é tão pequeno assim. É bem brincalhão, lhe garanto. E pode lhe fazer feliz. – Paulinho olhou para Tássia. — Posso lhe proporcionar momentos inesquecíveis também.

— Muito obrigada, mas dispenso.

Tássia já estava totalmente vestida quando olhou para o lado e se deparou com Kim abocanhando Paulinho como se dependesse daquilo para viver. Era demais. Pegou a bolsa, saiu do motel à pé e pegou um aplicativo para voltar para casa.

Nada como assistir a uma série e beber vinho até cair bêbada no sofá.

 

 

 

 

 


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