DELE EU SÓ SABIA O NOME - Cap. 1

 


 

                Era uma tarde como qualquer outra. Sol se pondo, trânsito chato e eu, estressada. Precisava urgente de 1 copo de vinho, 1 pudim de leite condensado, banho, Netflix, cama. Não necessariamente nessa ordem. Minha cabeça continuava uma maçaroca de pensamentos lá do meu serviço. Eu queria relaxar, mas tava difícil. Ousei baixar meus olhos para procurar uma música no celular. Não deveria fazer isto justo no meio do trânsito. Então... um estrondo.

                Enterrei meu pé no freio ao mesmo em tempo que enxerguei um cara caído no chão e a bicicleta mais adiante. Empalideci na hora. Atropelei uma pessoa. Pior, e se eu tivesse matado? Saltei do carro com as pernas tão bambas que achei que não conseguiria dar um passo. O ciclista já estava se levantando, parecia inteiro. Eu continuava tensa. Não sabia como estava a cabeça do cara por baixo do capacete. Talvez tivesse virado em sangue.

                Bem, ele removeu o capacete. E me deparei com o cara mais gato deste planeta.

*

                Meu atordoamento prosseguiu. Sério que eu quase matei um homem daqueles? Esqueci o trânsito, as buzinadas, minhas pernas-bambu. Me aproximei dele levitando no meio daquele caos que se formara ao meu redor.

                — Puxa vida – eu não sabia o que dizer. — Desculpe.

                — Ah, tudo bem. Foi culpa minha.

                — Não, não! Eu que errei! Er... quer que eu leve você para um hospital?

                Roupa de ciclista. Bermuda coladinha. Cabelo escuro. Barba por fazer. Acho que o olho era verde. Me apaixonei.

                Ele sorriu e eu quase desfaleci.

                — Não se preocupe. Estou bem.

                O lindo deu três saltinhos para me mostrar que estava inteiro. Eu não conseguia parar de olhar para ele.

                — Tem certeza? Posso te levar para casa, enviar sua bike para o conserto e...

                — Felipeeee!

                Aquele grito histérico se destacou entre buzinadas e reclamações de motoristas. Eu estava atrapalhando o trânsito com meu carro parado no meio da vida, mas não estava nem aí. Uma loira surgiu do nada com o capacete de ciclista na mão. Bonita, a infeliz.  Ela me encarou como se quisesse me matar. Logo percebi que o relacionamento sério dele havia chegado.

                — Amor, você se machucou?

                Ela se interpôs entre nós dois. Eu não quis me afastar. Felipe, este era o nome dele.

                — Não, Laura. Foi só uma queda.

                A maluca se virou para mim com olhos pegando fogo.

                — Você devia ter mais cuidado.

                — Desc...

                — Laura, pare com isto. A culpa foi minha.

                Ele juntou a bicicleta do chão pronto para acabar com aquela função.

                — Vamos embora. Já bagunçamos demais o trânsito por hoje.

                Parada no meio da avenida, observei o amor da minha vida se afastando com o amor da vida dele.

                A única coisa que eu sabia era que seu nome era Felipe.

 

*

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