O PEDIDO DE PALOMA
Havia gratidão nos seus olhos quando ele se voltou para mim,
ainda agachado acariciando seu cãozinho. Reparei até que suas mãos estavam um
pouco trêmulas. Não havia se recuperado totalmente do susto.
— Nunca vou poder lhe agradecer tudo o que merece. O que você
fez a vida não paga.
Todo mundo sabia o quanto Fabrício era apaixonado por aquele
cachorro. O fato de eu ter salvado o bicho de um atropelamento certamente
traria pontos para mim. Eu nem acreditava que aquilo estava acontecendo. O cara
por quem eu sempre fui apaixonada agora me olhava com olhos da mais pura
admiração.
— Imagina... – sacudi os ombros um pouco envergonhada. — Fiquei
muito feliz em poder ajudar.
Fabrício ficou em pé. Ele era uns bons dez centímetros mais alto
que eu. Além de ser o maior gato. Gostaria que alguém tirasse uma foto nossa e
me enviasse via WhatsApp. Eu guardaria para o resto da minha vida emoldurado em
um quadro bem em cima da minha cama.
Nossa, como sou bobinha.
Bobinha e apaixonada.
— Olha, eu me disponho a fazer o que você quiser – Fabrício
colocou a mão no meu ombro. Era verão e eu senti aquela mão morena em contato
direto com a minha pele. Tentei focar no que ele dizia já um tanto perturbada. —
Você precisa de nota em alguma matéria? Ou uma cola na prova? Deixe-me ver...
Você quer aprender a andar de skate? Um dia vi você se arriscando em algumas
manobras.
Ah, ele viu? Então deve ter assistido meus inúmeros tombos.
Mico. Mas uma ideia já vinha se formando na minha mente criativa. Aliás, uma
ideia muito doida e que, com certeza, era ridícula e não seria aceita por ele.
— Eu... eu gostaria de um favor... Se não fosse incômodo.
Fabrício sorriu e eu quase desfaleci.
— Puxa, é claro! É só pedir.
Acho que nunca passou pela cabeça do Fab o quanto era arriscada
toda aquela sua disposição em me recompensar. Porém, tenho certeza que todo o
amor pelo cachorro Baby valia a pena. E lá fui eu, com toda minha cara de pau,
revelar o que eu realmente queria que ele fizesse:
— Preciso que você finja ser meu namorado por apenas uma noite.
Uau, ele levou um susto. Pudera. Ignorei o fato que ele namorava
a Bárbara que, por sinal, não ia com a minha cara. Arrependi na hora de ter
proposto aquilo e já estava pensando em bater em retirada antes que meu rosto
ficasse totalmente num vermelhão.
— Desculpe – consegui dizer. Tentei dar meia volta, mas ele
segurou meu braço.
— Espera aí, Paloma. Eu topo, sem problema.
Cravei meus olhos nele achando que tinha entendido errado.
— Hein?
— Sim, eu ajudo você. Mas... primeiro quero que você me conte o
motivo.
Respirei fundo. Era muita emoção. De repente, Fabrício virou meu
confidente.
— É aniversário da minha avó. Toda minha família vai estar lá.
Minhas primas bonitas e insuportáveis também. Elas vivem infernizando minha
vida porque não tenho namorado.
— Ah, entendi.
— Se fosse aniversário de outra pessoa eu nem iria. Só que é da
minha avó. Não posso faltar. E... bem, se eu aparecer com um cara bonito como
você, elas vão largar do meu pé. É isto.
— Certo. Quando é o evento?
— No próximo domingo – faltava ainda uma semana e borboletas
voavam dentro do meu estômago.
— Beleza. Vamos combinar durante a semana, está bem?
— Sério mesmo?
Fabrício sorriu. Como alguém podia sorrir tão lindo?
— Claro, está combinado. Pega aí meu Whats para a gente acertar
as coisas.
Anotei o número dele e ele, o meu. Eu vivia um sonho, ainda que
construído sobre alicerces instáveis. Porém, era boa demais aquela sensação.
— Espero que sua namorada não se importe.
— Bárbara? Nem se preocupe com ela. O importante é o Baby estar
sem nenhum arranhão.
Nos despedimos e eu voltei para casa sentindo asas nos pés.

Comentários
Postar um comentário