FEITIÇO DO AMOR




Ela chegou por volta das 17h, uma hora adiantada. Percebi que aquela moça bonita e descolada parecia ansiosa. Logo pensei: ela está com problemas afetivos. Bem, na verdade, era por esse motivo que quase a totalidade das minhas clientes vinha me procurar. 

Homens.

O nome dela era Luciane, mas eu podia chamá-la de Lu. Todo mundo a chamava assim, era mais prático e bonito. Fui logo ao ponto:

 — Por que você veio aqui?

Lu respirou fundo e acho que sugou todo o incenso que pairava no ar.

— Meu namorado.

Pronto. Eles estão em crise e querem que eu resolva. Ótimo. Estou aqui para isso.

— Brigaram?

— Não, de jeito nenhum. Nos damos muito bem. Ele é incrível comigo.

Não entendi nada.

— Qual é o problema, então?

— Preciso me livrar dele.

— Oxe... Mas você não disse que o cara é legal?

Lu chegou mais para frente como se fosse me revelar um segredo.

— Legal até demais. Um anjo. Acontece que eu gosto dos malvados.

— Ah...

— Ricardo traz flores para mim todos os dias. Envia mensagens de amor. Aparece com bombons deliciosos. Já engordei dois quilos. Na cama é gentil também. Gentil ao extremo. Eu gosto de sexo selvagem. Já pedi, mas não é o tipo dele. Você acredita nisto? Nem anal ele faz. Aí também já é demais.

— Bem – quase concordei com ela que homem bonzinho demais às vezes podia ser cansativo. — Você quer exatamente o... quê?

— Não quero magoar o Ric. Ele não merece sofrer. Preciso de uma magia forte o bastante para que meu namorado enjoe de mim. Pode me ajudar?

Ansiedade a mil grau. O Ric devia ser um porre mesmo.

— Claro que sim. Você tem uma foto do moço para eu ver?

Era pura curiosidade. Nunca precisei de foto nenhuma para meus feitiços darem certo.

— Claro – Lu pegou o celular e logo virou a tela para mim. — É este aqui.

U-au. Ricardo. Era uma foto em que ambos estavam na praia. Ele de sunga preta. Músculos definidos, na medida. Bronzeado de sol, barba mal feita, olhos verdes e um sorriso iluminado. Me servia. Oh, céus. Era meu tipo.

Me controlei. Analisei Ricardo e tentei me focar no pedido da Lu.

— Parece boa gente.

— Ele é ótimo. E eu não posso magoá-lo.

Respirei fundo. Ricardo. Meu coração acelerou. Segurei.

— Vou precisar de uma mecha de cabelo e uma cueca. Limpa. Bem, pode ser a sunga da foto.

Lu anotava tudo, tensa e determinada.

— Só isto?

— Sim. Depois traga tudo para mim.

Ela me olhou.

 — Hoje é sexta-feira. Passarei o final de semana com ele. – Lu revirou os olhos. — Posso trazer segunda-feira?

 — Deve.

Lu abriu a carteira.

— Quanto mesmo o valor da consulta? R$ 200?

Ela me estendeu algumas notas de dinheiro e eu empurrei a mão dela de volta.

— Somente quando o feitiço dar certo.

— Certo. Mas eu posso dar um adiantamento...

— Não se preocupe – eu suava. — Aguardo você na segunda-feira.

 Luciana foi embora e eu me encostei na parede, ansiosa. Ricardo. Como uma mulher recusaria um cara como aquele? O que você tem na cabeça, Lu? Ah, obrigada por me procurar. Eu tenho grandes ideias com ele.

                                                                                  *

Para surpresa minha, Lu me enviou uma mensagem domingo à noite. Ela já tinha a sunga e o cabelo. Podia trazer? Claro. O mais rápido possível.

Ela apareceu uma hora depois. Trouxe em um saquinho a mecha do cabeço escuro de Ricardo e em outro saco plástico, a sunga.

— Você não tem ideia do quanto fui mimada estes dois dias – reclamou.

Mas... ser mimada era tão ruim assim?

— Espere – pedi, disfarçando a ansiedade. — Eu preciso do endereço. Vou largar o feitiço no jardim da casa dele.

— Ah, está bem. Ele mora em um prédio com um jardim grande na frente.

Lu me entregou o endereço em um pedaço de papel. Logo decorei. Ela foi embora e eu comecei a agir. Separei a mecha de cabelo e cortei outra do meu próprio cabelo. Tirei minha calcinha e juntei com a sunga dele. Fiquei toda arrepiada. Pude sentir um nível de energia crescente vindo dali. Onde quer que Ric estivesse, ele deveria estar sentindo o mesmo que eu: tesão. Só desconhecia por quem. Com certeza não era por Lu.

                                                                                  *

Segunda-feira, oito horas da noite. O céu estava um pouco nublado e a noite, mais escura. Melhor assim. Eu não desejava ser observada. Parei frente ao jardim segurando tudo num saco onde estavam a sunga, calcinha e as mechas. Tudo o que eu precisava fazer era ser discreta o bastante para fazer uma oração do amor inventada por mim e enterrar o saco no jardim. A rua era deserta. O porteiro estava no hall do prédio lendo jornal. Tudo corria bem. Olhei para o edifício em que Ric morava. Será que ele estava em casa?

Rezei, baixinho, cheia de fé. Novamente a energia pulsou dentro de mim, percorrendo minhas veias e foi parar bem no meio das minhas pernas. A mesma coisa deveria estar acontecendo com Ricardo em algum lugar, o pau dele deveria estar duro. A diferença é que ele ainda não sabia por quem.

Ainda não.

O próximo passo era enterrar o saco no jardim. O porteiro continuava distraído. Mas não cheguei a me mover. Senti um movimento ao meu lado e me virei para ver o que era.

— Boa noite.

Ricardo estava parado a dois passos de mim, sorriso aberto, tão lindo que chegava a doer. Eita feitiço bom! O feitiço estava em plena ação.

— Ah, boa noite.

Dei uma olhada, rápida, para a calça dele. Havia um bom volume ali. Me senti cheia de poder.

— Eu vi você olhando para meu prédio – Ric aproximou-se um pouco mais. Aspirei o perfume dele e cheguei a conclusão que a pessoa enfeitiçada era eu. — Procura alguém em especial? Posso lhe ajudar?

Discreta, coloquei o saquinho dentro da bolsa. Não precisaria mais enterrá-lo.

— Na verdade, estou em busca de um apartamento para alugar. Então – desviei os olhos para o prédio. — Achei este lugar tão interessante... Você sabe se tem algum apê vago?

 

— Ah, parece que vai ter sim. Uma vizinha irá se mudar daqui a um mês.

Olhei para ele. Aliás, era impossível desviar os olhos de Ricardo. Como era possível que Lu não quisesse mais nada com ele?

— Puxa, que legal. Bem, então eu vou passar aqui novamente daqui um tempo.

— Eu posso lhe avisar, se você quiser.

Que prestativo, pensei.

— É mesmo? Como?

— Só me passar seu celular. Quando o apartamento ficar vazio, eu ligo para você.

— Perfeito – eu não podia deixar aquela oportunidade passar. — Você pode anotar meu número?

Fui embora levitando. O feitiço estava dando certo. Em breve Lu estaria livre do Ricardo. E ele, na minha cama.

*

Não demorou dois dias ele me ligou. Me fiz de sonsa quando atendi o celular:

— Alô?

— Larissa? É o Ricardo. Lembra de mim?

Como não?

— Oh, Ricardo. Claro que sim! Não me diga que o apartamento está vazio? – senti minha calcinha encharcar.

— Não ainda. Mas está próximo. Eu só... bem, pensei de a gente se encontrar para bater um papo. Sei lá, algo assim.

Eu devia bancar a difícil. Sim, dificultar um pouco as coisas. Mas pensei melhor. Complicar para quê?

— Seria ótimo. Quer vir aqui em casa? Posso preparar um café para nós. Ou chá? Ou você prefere um suquinho? Vinho tinto?

Ele chegou por volta das oito horas da noite com um buquê de flores silvestres. Nunca um homem havia me dado flores tão lindas. Me derreti. Ricardo sentou no meu sofá e no início ficamos um pouco envergonhados. Tipo, sem assunto mesmo. Então perguntei:

— Você tem namorada?

Era a chance de saber se o feitiço estava dando certo.

— Para ser bem franco eu tenho um relacionamento – ele coçou a testa. — Mas, na verdade, acho que em breve ele chegará ao fim.

— É mesmo? – me acomodei melhor no sofá. — Por quê?

— Somos muito diferentes, sabe? As personalidades não batem. Ela é uma excelente pessoa. Mas... existem outras pessoas interessantes no mundo, não é?

— Ô... O importante é ser feliz.

— E você? Me conte o que você faz da vida.

E agora? Se eu dissesse que sou cartomante e que tinha feito um feitiço para acabar com aquele relacionamento fracassado dele, o que Ricardo diria? Antes que eu tivesse pensando em algo para dizer, a campainha tocou. Levei um susto.

— Esperando alguém?

— Não. Deve ser minha vizinha do apartamento de cima – levantei do sofá — É uma senhora de 80 anos e ela adora vir aqui me trazer as sobremesas deliciosas que faz. Vou lhe apresentar. Você vai adorar a vovó.

Abri a porta.

Era a Lu.

*

— Oiê, mulher!

Lu deu um berro e eu gelei. Percebi que Ricardo se mexeu no sofá. Não adiantava eu não deixá-la entrar. Ele já havia escutado a voz da namorada.

— Lu... Nossa, você parece ótima.

— Você nem sabe! Seu trabalho deu certo!

Ela entrou no meu apartamento quase saltitante. Ricardo já estava em pé. Fechei a porta para a vizinhança não escutar o barraco que estava prestes a se desenrolar. Luciane ficou com o sorriso congelado no rosto quando se deparou com Ricardo. Eu fiquei no meio, paralisada, sem saber o que fazer.

— O que é isto? – ela perguntou, desconfortável. — É um date?

— Que trabalho é este que você está falando? – Ricardo cruzou os braços encarando-a.

— Ah, eu... – ela me olhou e eu percebi que Lu procurava uma desculpa para dar. — A Larissa fez o meu TCC. Lembra que eu falei que estava com dificuldade para fazer? Bem, ela fez tudo para mim.

Um pouco atrapalhada, Lu tirou a carteira da bolsa e separou quanto me devia pelo feitiço. Ricardo, um pouco contrariado, apresentou:

— Esta é minha namorada, a Luciane. Mas, pelo visto, vocês já se conhecem.

Eu e Lu nos entreolhamos. Eram namorados ou não?

— Se você precisar de algum retoque no seu TCC, pode me procurar – achei que estava ficando vermelha. Lu estava um pimentão.

— Tudo bem. Acho que não será preciso.

— Ótimo.

— Bem – ela olhou para Ricardo. — Preciso ir. Tchau, Ricardo.

— Vou com você – ele disse.

Murchei. Como assim? Ele ia me deixar sozinha, então?

— Pode ficar – replicou Lu. — Não quero atrapalhar a conversa de vocês.

— Já acabamos – Ricardo olhou para mim como se pedisse desculpas. — Nos falamos outra hora.

Nem respondi. Os dois foram embora, incomodados um com o outro, e eu bati a porta com raiva. Droga. Maldita hora em que a Lu veio me pagar. Se eu soubesse teria feito tudo de graça. Peguei a taça de vinho que havia separado para beber com Ricardo e me servi duas vezes. Caí no sono, meio bêbada, e naquela noite nem sonhei.

*

No outro dia pela manhã recebi uma mensagem de Lu.

“Ricardo me contou. Está tudo bem. Seu feitiço deu mesmo certo. Ele está bem afim de você. Boa sorte.”

Mais tarde Ricardo apareceu com uma caixa de bombons recheado com licor.

Um salve para os homens gentis e fofos que ainda habitam neste mundão de Deus.

 

 


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