ELIENE E O REI
Quando Eliene abriu a janela do seu quarto ficou surpresa com a quantidade de brumas que cercavam a casa e o bosque inteiro. Não era uma visão que gostasse. A jovem adorava admirar o verde das árvores e o colorido das flores. Mas as brumas estavam densas aquela manhã e até o sol firmar seria por volta do meio dia.
Aborrecida, Eliene foi para a cozinha. Tinha apenas 18 anos, porém
vivia sozinha há algum tempo desde que o pai morrera daquela gripe terrível que
levara boa parte dos idosos da aldeia. Não era tão ruim viver assim, ela se deu
conta pouco tempo depois. Eliene fazia alguns trabalhos nas casas da vizinhança
para manter-se. E, algumas vezes, recebia na sua casa viajantes que passavam
pela aldeia e precisavam de um pouco de descanso antes de seguirem adiante.
Além de hospedá-los, Eliene recebia um dinheiro extra por servicinhos também
extras. A vizinhança, era sabido, não via aquilo com bons olhos, principalmente
as mulheres. Contudo, Eliene não se envolvia com os homens delas. A jovem não
queria complicações na vida sem pretensões que levava.
A bruma estava forte quando pancadas fortes na porta a despertaram
do seu trabalho manual. Eliene correu até a porta e assim que a abriu se
deparou com um homem alto, de barba e de expressão cansada.
- Preciso de um lugar para ficar - murmurou ele entrando sem
convite e cambaleando.
Ela se apressou a pegar um tapete de pele e mantas grossas.
Estendeu sobre o chão e o homem caiu duro, exausto, pegando no sono no mesmo
instante. Eliene ficou por um tempo observando-o. Ele era belo, o cabelo negro
descia pelo pescoço até o ombro. Quem seria? De onde vinha? Será que tinha
alguma mulher o esperando em outro lugar?
Eliene se agachou e tirou-lhe as botas pesadas. Os pés estavam
gelados e úmidos. Com cuidado, colocou toalhas quentes para aquecê-los. Ele
pareceu relaxar. Sabendo que o desconhecido acordaria esfomeado, Eliene
preparou uma sopa grossa. Depois sentou, paciente, na cadeira de balanço que
era do pai e continuou seu bordado.
Ele acordou por volta das três horas da tarde. No início parecia
não saber onde estava. Então focou seus olhos em Eliene que parou ao lado dele
com uma tigela cheia de sopa fumegante.
- Fiz para você.
Com um olhar desconfiado, ele pegou a tigela e devorou a sopa.
Eliene precisou servi-lo mais duas vezes.
- Quem é você? - ela teve coragem de perguntar depois de algum
tempo.
- Valentim. Desculpe chegar desse jeito. Me perdi no meio da bruma.
Ela desceu de repente.
Valentim olhou em volta para a casa vazia.
- Onde está sua família?
- Não tenho ninguém - Eliene respondeu pegando a tigela vazia das
mãos dele. - Moro sozinha desde que meu pai morreu.
Ela levou a tigela até a tina de água sabendo ser observada pelo
homem. Sem olhá-lo disse:
- O senhor pode passar o tempo que precisar nesta casa - ela fez
uma pausa. - Costumo hospedar viajantes. É assim que me sustento.
- Qual seu nome? - Valentim perguntou.
- Eliene - ela se voltou e fez o seu olhar mais doce. - Há um
quarto nos fundos onde o senhor pode ficar mais bem acomodado.
Eliene o levou até o quarto onde os hóspedes dormiam. Era de bom
tamanho, tinha uma cama confortável e um baú para guardar roupas. No canto uma
mesa e uma jarra. Eliene a pegou e se virou para Valentim.
- Vou encher de água.
Quando retornou trouxe também um pote de biscoitos.
- Para caso o senhor sentir fome. Servirei o jantar às sete horas
da noite.
Ele apenas balançou a cabeça fazendo que sim. Eliene voltou para a
cozinha e começou a preparar o jantar. Até quando ele resistiria a ela?
Valentim ficou fechado no quarto até Eliene bater à porta com o
jantar servido em uma bandeja. O homem agradeceu e a jovem se retirou,
frustrada.
- Que droga... - murmurou.
Ela foi para a cama uma hora depois. O dia ficara frio e um vento
soprava lá fora. Ela deitou sob as cobertas e não tardou a pegar no sono.
Eliene não soube em que momento da noite tudo aconteceu. De repente, sentiu um
peso sobre seu corpo e abriu os olhos, surpresa. A luz da lua entrava pela
janela e iluminava Valentim.
- O que o senhor...
- Cale-se - disse ele. - Bem, tanto faz. Ninguém vai escutar você
mesmo.
Eliene sentiu os pelos do homem roçando sobre sua roupa. Roupa que
logo foi arrancada. Ela gostou daquilo. Na maioria das vezes os homens que
passavam pela sua casa eram rápidos. Mas aquele era diferente. Valentim segurou
os seios de Eliene e chupou um de cada vez. Ela gemeu um pouco alto e um tapa
vibrou no seu traseiro.
- Prostituta - Valentim sussurrou no ouvido dela. - Já me contaram
do que você é capaz.
- Quem? Quem foi? - Eliene levantou a cabeça surpreendida com a
revelação.
- Cale-se.
A língua de Valentim desceu devagar pelo corpo dela dos seios ao
meio das pernas. Ali ele se demorou um pouco mais. Eliene sentia a barba
roçando entre as coxas e a cada sugada ela se retorcia. Ah, se pudesse gritar.
Uma das mãos de Valentim pousara, firme, sobre a boca de Eliene. Dor e prazer
se misturavam nela.
O luar revelou o membro grosso do homem e Eliene deixou escapar um
gemido. Oh, não, pensou ela. Não sabia se iria suportar. Não daquele tamanho.
E, puxa, Valentim não era nenhum pouco carinhoso.
A primeira estocada fez Eliene se lembrar da sua primeira vez. O
grito escapou entre os dedos dele que agora mal tapavam sua boca.
- Você não aguenta, vadia? - ele falou ao ouvido dela.
- Por favor... - gemeu a jovem. - Eu não...
Mas Eliene queria mais. Desejava aquele bruto todinho dentro dela.
Valentim enterrou seu membro com mais força ainda e Eliene achou que algo
dentro dela se partiria.
Eliene cravou as unhas nas costas dele e Valentim gemeu também. Ele
mexia cada vez mais forte, alucinado, quase louco. A jovem sentiu os cabelos
sendo puxados para trás e sim, ela ia gozar a qualquer momento.
Ambos chegaram ao clímax quase juntos. Eliene sentiu o corpo vibrar
e ficar inerte pouco depois. Quem era Valentim? Mal sabia o que era um orgasmo com
os outros homens que por lá passaram.
Ele ficou deitado ao lado dela por um tempo se recuperando do ato.
Eliene reprimiu a vontade de encostar a cabeça no peito dele. Valentim não era
homem disso. O corpo dela doía, mas nada do que fizera se arrependia. Quando
será que ele iria partir? Não podia deixar aquele homem sair da sua vida assim
tão fácil. E se escondesse suas roupas? Cansada, ela dormiu e quando despertou
na manhã seguinte, Valentim não estava mais ao seu lado.
*
Seguiram-se dias solitários para Eliene. Alguns viajantes passaram
por sua casa, mas ela se trancou lá dentro recusando-se a atender a porta.
Contudo, aquela situação não podia durar para sempre ou ela morrera de fome. Ao
mesmo tempo seu coração sofria por aquele desconhecido. Boba! Apaixonar-se por
um homem que ficara com ela por poucas horas! Talvez nunca mais o visse. O
melhor a fazer era seguir a sua vida e isso significava recomeçar a receber os
viajantes que passavam por lá.
Um dia, porém, surgiu um convite. E ele veio bem a calhar. Lourie
precisava ir até a cidade adquirir as ervas e essências para a fabricação dos
seus perfumes e queria que Eliene a acompanhasse. Àquela altura a despensa da
garota estava à míngua e ela aceitou. Além de ganhar um dinheirinho, Eliene
desejava respirar novos ares. As pessoas da aldeia a sufocavam com aquelas
mentes tacanhas. Ver gente diferente na capital do reino era tudo pelo que
ansiava.
A viagem durou um dia inteiro. Cada mulher foi montada em um burro
e um terceiro animal levava cestas para trazer de volta os produtos que seriam
adquiridos. Lourie e Eliene chegaram à cidade somente à noite e dormiram em uma
hospedaria simples. No outro dia pela manhã, enquanto comiam o desjejum, a dona
do lugar comentou:
- Vocês chegaram no dia certo. Haverá uma grande festa na cidade.
Hoje o Rei reconhecerá seu filho bastardo como o legítimo príncipe herdeiro.
- Que ótimo - Eliene olhou para Lourie. - Podemos ver alguma coisa,
não?
- Primeiro a obrigação. Vamos à feira - sentenciou ela muito séria.
- Depois teremos tempo para nos divertirmos.
Ambas passaram a manhã toda ocupadas. As horas passaram rápidas e
no início da tarde almoçaram na hospedaria. Lourie não era jovem como Eliene e
se sentia exausta.
- Pode ir às festividades se você quiser, Eliene. Meus pés parecem
estar pegando fogo. Só iremos retornar amanhã para a aldeia.
- Está certo, irei mesmo. Não vou me demorar. Na verdade nem sei se
irei conseguir ver alguma coisa. A cidade está cheia.
A capital do reino fervilhava. Muitas pessoas de fora haviam vindo
para conhecer o príncipe herdeiro. Eliene ganhou as ruas da cidade e, no
início, ficou assustada com a movimentação. A aldeia era pura paz e
tranquilidade. Mas a cidade era um lugar onde as pessoas se esbarravam a todo
instante, os odores a sufocavam, os homens a encaravam de um jeito rude e
selvagem. Porém, Eliene logo se acostumou com a balbúrdia, falatório e risadas.
Ora, não era tão ruim assim. Depois de caminhar por algumas ruas Eliene já
estava gostando de tudo. A aldeia, de fato, era um lugar muito, muito monótono.
Ela perguntou para um homem onde seria a festa e, depois de saber o
caminho, para lá se dirigiu cada vez mais animada. De repente, Eliene se viu em
um descampado com muitas tendas coloridas e algazarra. As pessoas estavam
instaladas em bancos de madeira ao redor e agitavam flâmulas coloridas para
dois cavaleiros que simulavam uma luta com lanças. Extasiada, Eliene conseguiu
achar um lugar onde tinha uma boa visão do espetáculo. Tudo era fascinante. Os
dois homens, vestidos com armaduras que brilhavam sob o sol, protagonizaram uma
batalha memorável. A tudo Eliene assistia boquiaberta, esquecida que estava lá
para conhecer o futuro rei. Depois que a luta acabou, trombetas soaram. As
pessoas silenciaram e Eliene se encolheu no lugar onde estava alojada. Do outro
lado do campo, bem em frente à Eliene, um homem mais velho se ergueu. Levaram
alguns segundos para que ela se desse conta que aquele era o Rei. Nunca o tinha
visto na vida. O homem vestia uma túnica branca e sobre ela um manto dourado.
Já tinha uma certa idade, mas era um homem ainda bonito, barba bem feita, boa
altura. Ao lado de Eliene algumas mulheres suspiraram, extasiadas. Ela chegou a
se emocionar. Nunca imaginou que algum dia teria oportunidade de conhecer o
Rei. Diziam que era um homem muito bom. Viúvo, sem filhos, todos sabiam do seu
drama na sucessão do reino. Pelo visto, esse problemão não existia mais.
O Rei começou a discursar, porém o vento levava suas palavras para
longe. Eliene pouco escutava, mas ela não se importava com isso. Era um momento
grandioso na vida do reino e Eliene segurava as lágrimas por fazer parte
também.
Então ela escutou, em meio ao silêncio respeitoso dos súditos, um
nome conhecido. Valentim.
Príncipe Valentim.
Eliene sentiu um soco no peito e cambaleou. Seus olhos se ajustaram
mais na figura alta e morena que surgiu ao lado do Rei.
Era ele.
Valentim.
*
Atormentada. Foi assim que Eliene se sentiu quando visualizou
Valentim em pé ao lado do Rei. Em seguida ambos foram até o centro da arena
para oficializar o ato do reconhecimento do príncipe herdeiro. Eliene teve
vontade de agitar os braços, gritar, enfim, fazer qualquer coisa para chamar a
atenção dele. Mas nada fez. Ele sequer a veria no meio daquela multidão. Talvez
não a reconhecesse. Ou a ignorasse mesmo. Eliene assistiu - o coração martelava
tanto dentro do peito que até se sentiu mal -, a cerimônia prosseguir. Depois
que tudo acabou, Rei e Príncipe se retiraram da arena e as pessoas presentes
começaram a festejar. Vinho e cerveja rolavam soltos. Havia uma mesa enorme com
leitões assados para os súditos se servirem. A música alegre incentivava as
pessoas a dançarem umas com as outras. Um homem fedido agarrou Eliene pela
cintura e ela lhe desferiu um forte tapa no rosto.
- Não me toque - gritou, raivosa. - Eu pertenço ao Príncipe
Valentim!
Era noite já. Eliene voltou para a hospedaria ainda pasma com tudo
o que presenciara. Lourie reparou que a moça estava esquisita, mas Eliene
alegou cansaço.
No outro dia, antes de o sol nascer, Lourie e Eliene voltaram para
a aldeia carregadas com óleos, ervas e essências. Chegaram somente ao
entardecer e Lourie entregou um saquinho de pano à moça.
- Aqui está sua recompensa. Obrigada por ter me acompanhado.
Eliene apertou com força o saquinho colorido entre os dedos.
- Muito obrigada. Eu estava precisando muito - ela fez uma pausa. -
Muito mesmo.
- Faça bom proveito.
Eliene entrou em casa e fechou a porta à chave. Respirou fundo, os
olhos cerrados. Os vizinhos só se deram conta que Eliene havia abandonado a
aldeia no final da tarde do dia seguinte.

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