MEU SONHO DE CONSUMO

 

Quando o Renato iniciou na empresa, a mulherada entrou em surto. Eu, inclusive. Eu, talvez mais que todas as outras. Eu, a carente-mor. Novo coordenador da Assessoria Jurídica, cavanhaque, fortinho na medida, olhos negros misteriosos e um sorriso de deixar qualquer calcinha molhada. A primeira coisa que nós, mulheres, reparamos, é que ele não trazia nos dedos nenhuma aliança. Opa, isso era mesmo possível? O cara mais gato dos últimos tempos era... solteiro?

— Ou gay – sentenciou a Clara, emburrada convicta, azarada no amor e disposta a infernizar as colegas. — É bonito demais para ser solteiro. Deve ter um macho esperando ele em casa.

Quase banimos Clara do nosso grupinho do café. Nos reuníamos – éramos em torno de cinco mulheres – na copa, duas vezes por dia. A fofoca rolava solta. Tipo, quem estava pegando quem. A recepcionista grávida do oficce-boy. A secretária piranha. O divórcio da chata do RH. Tudo eram notícia e risadinhas entre nós. Assuntos esses que foram para o espaço quando o Renato surgiu feito um tornado nas nossas vidas. Eu não queria acreditar que ele era gay. Meu Deus, eu pensava nele dia e noite, sonhava com o cara, me masturbava pensando naquele corpo lindo. Mas... bem, ele nem olhava para minha cara. Então, se ele fosse gay ou não, tanto fazia, não é mesmo?

Eu trabalhava na área financeira da empresa fazia uns cinco anos. Minha sala era envidraçada e, sendo assim, eu enxergava todos que passavam no corredor. Todos, inclusive o Renato. Sempre fui competente, observadora, minuciosa com minhas atividades. Até o Renato chegar. Dei um jeito de virar minha mesa para ficar de frente para o corredor. Dessa forma, eu poderia ver quando ele estava passando. Ninguém suspeitou da minha artimanha. Eu trabalhava com um olho nos relatórios e o outro espreitando quem passava. Nem me reconhecia mais. Aquele homem estava me deixando louca. Mesmo sem nunca ter lançado um único olhar para minha cara.

Então um dia... Ele entrou na minha sala. Lindo, elegante, um sorriso nos lábios. Parei de respirar. Uau. Ai, meu Deus. Renato está vindo em minha direção. Senti as borboletas voarem todas dentro do meu estômago. Endireitei os ombros e armei um sorriso. Ele passou reto. Foi direto para a mesa do meu chefe e sentou cruzando as pernas. Permaneci com meu sorriso congelado para caso alguém tivesse reparado no meu comportamento. Me senti uma besta. Ora, de onde eu inventei que Renato iria falar comigo? Ridícula.

— Andressa?

 Voltei-me imediatamente para meu chefe. Ele me olhava segurando uma garrafa térmica.

 — Pois não? – firmei a voz.

 — Você pode fazer um cafezinho para nós?

 Eu dei um salto da cadeira. Claro que eu podia. Óbvio que sim.

 — É pra já.

Tentei caminhar, sedutora, até onde eles estavam. Ele olhou para mim. Foi a primeira vez que nossos olhos se encontraram. Meu coração acelerou, achei que fosse enfartar. Em meio àquele turbilhão de emoções e excitamento, ainda escutei meu chefe dizer:

— A Andressa faz o melhor café do mundo.

 Renato sorriu. Para mim. Não sei que cara fiz. Devo ter sorrido, é claro. Espero não ter sorrido demais.

— Estou curioso para provar.

Cruzes. Peguei a térmica e saí, em chamas, até a copa. Minhas colegas, as mesmas que estavam loucas para passar uma noite (ou várias) com o Renato, me encaravam com alguma inveja. A Clara soltou uma gargalhada. Ignorei. Já devia estar vermelha o bastante. Eu precisava me controlar. Não tinha mais 15 anos. Era o dobro disso. Seja mais mulher, Andressa, eu disse para mim mesma.

Preparei com todo amor e carinho. Coloquei o café dentro da térmica e voltei para a sala. Eu nem respirava. Não podia tremer. Precisava passar segurança e empoderamento. Pelo menos era o que eu lia nos sites femininos. Renato estendeu uma pequena xícara para que eu o servisse. Foi o que eu fiz ante o olhar dele sobre mim. Me perdi. Tremi. O café quente caiu sobre as calças dele. Tive vontade de fugir.

Por que eu sou tão idiota?

Eu quis morrer. Ser abduzida. Eu mal podia acreditar na burrada que havia feito. Meu chefe me encarou com os olhos arregalados. Achei que seria demitida ali, naquele momento.

Renato, contudo, não pareceu se importar. Ou fingiu muito bem. Ele pegou uma folha de papel que estava sobre a mesa e passou nas calças. Antes que eu abrisse a boca, ele disse:

— Está tudo bem.

Meu chefe recuperou a voz. E estava furioso.

— Andressa, não fique aí parada. Vá buscar um pano para enxugar a porcalhada que você fez.

Dei meia volta e saí atarantada até a copa. Uma das colegas, que havia presenciado a cena, foi atrás de mim.

— Amiga, o que foi aquilo que você fez? Era tanta emoção assim?

Eu me sentei em uma cadeira, mortificada. Olhei para ela e balbuciei:

— Acho… que sim.

Cobri o rosto de pura vergonha. Ela pegou um paninho e tentou me tranquilizar:

— Fique quietinha aí, está bem? Eu vou até lá consertar as coisas.

Concordei. Não tive mais coragem de sair da copa naquela manhã. Não voltei ao meu posto de trabalho. A vergonha era demais. Vários colegas haviam presenciado a cena ridícula, sem falar que Renato devia estar me achando uma bobalhona sem noção. Só saí da cozinha quando minhas colegas vieram me buscar para o almoço. Àquela altura os demais já haviam saído. Eu fiquei murcha o tempo todo. Não tive ânimo para sorrir ou contar piadinhas. As meninas, pelo menos, não tocaram no assunto. Pensei em entrar de férias e antes de sair do restaurante, me cadastrei em um site de empregos.

— Nossa, Andressa – Clara me xingou reparando na minha expressão devastada. — Acidentes acontecem.

— Estou morta por dentro. De vergonha, de raiva... Meu Deus. Como sou desastrada.

Paula, irreverente, comentou:

 — Você devia ter lambido o café nas coxas dele. Tipo, fazer do limão uma limonada.

 Elas riram da gracinha. Eu quase chorei.

 — Vou levar uma mijada do Doutor Carlos. Vocês vão ver.

 — Certo. Depois você se seca e recomeça sua vida, está bem? – Clara era muito prática. — Logo este assunto será esquecido.

— Esquecido por vocês – resmunguei. — Eu vou lembrar pelo resto da vida.

Voltei para minha sala, murcha e tensa. Pensei em colocar a mesa em outra posição e ficar de costas para o corredor. Será que alguém se daria conta? Eu estava pensando no que fazer quando Renato abriu a porta da minha sala. Ele já estava com outra calça.

— Boa tarde – foi a única coisa que me ocorreu dizer.

Ele se aproximou de mim com um meio sorriso. Não parecia estar zangado.

— Boa tarde, Andressa. É Andressa, não é? Sei que você ficou aborrecida com o que aconteceu. Mas não se preocupe. Está tudo bem.

 Senti um alívio no peito. Ele estava bem de boa.

— Ah, desculpe. Foi mal, mesmo. Não sei como pude ser tão desastrada. Estraguei sua calça?

Renato sorriu e eu me derreti. Ele estava tão lindo, tão simpático, tão querido. Ora, acho que estava pintando um clima entre nós. Ai, meu Deus!

— Não, de jeito nenhum. Ah, eu tenho outras também.

Nós dois rimos. Nem acreditei. Minha trapalhada estava tendo um final feliz.

— Fiquei com medo de ter queimado você.

— Ah, só senti um calorzinho – ele riu. Eu ri junto, mais à vontade. Minhas colegas ainda não haviam voltado para a sala e isto era ótimo. — Mas não se preocupe. Fui para casa e minha esposa lavou a calça para mim. Ela é ótima nisto.

Ah, esposa... Cheguei a piscar. Oi? Ela lavou a calça para você? Você não é capaz de lavar uma calça? Sua mulher tem que fazer isso?

— Que legal – sorri sem saber o que dizer. Eu estava decepcionada. Deveria ter jogado o café inteiro sobre ele.

— Bem, tenha uma excelente tarde. Outra hora eu passo aqui para tomar um cafezinho.

— Será ótimo – lancei meu sorriso mais falso.

Ele saiu da sala, lindo e elegante. Virei a mesa para o outro lado e comecei a trabalhar.

 

               

               

               


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